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terça-feira, setembro 16, 2008

Um outro 11 de setembro




No dia 11 de setembro de 1973 a história da América Latina mais uma vez se encheu de infâmia. Depois do Brasil e da Bolívia em 1964, da Argentina em 1966 e 1976, do Uruguai naquele mesmo ano, foi a vez do Chile sofrer um golpe militar (o Paraguai já sofria com a ditadura desde 1954, e ainda sofreria sob os desmandos de Stroessner (1912-2006) até 1989, a ditadura mais longa da América do Sul). Reforçando o pensamento preconceituoso existente na Europa e nos Estados Unidos de que o continente era constituído de repúblicas das bananas, assoladas por caudilhos, o general Augusto Pinochet (1915-2006) deu um golpe militar no presidente constitucionalmente eleito Salvador Allende (1908-1973), que resistiu bravamente, e morreu no palácio de governo. O golpe do Chile teve apoio dos Estados Unidos que mandou navios para a costa chilena, além de ampla participação da CIA. O Chile sofreu com uma das ditaduras mais duras do continente, com milhares de mortos e desaparecidos. Finalmente, em 1990 o país voltou à legalidade com o fim da ditadura militar.
Diferente do Brasil, no Chile os agentes do Estado que mataram e torturaram têm sido punidos. O ditador chileno, Augusto Pinochet, chegou a ser preso em 1998, em Londres, por ordem expedida pelo valente juiz espanhol Baltasar Garzón. Além das acusações de assassinatos e violações de direitos humanos o ditador enfrentou acusações por outros crimes cometidos por ele, como enriquecimento ilícito.
A política estadunidense continuou a ser de intervenção direta ou indireta em outros países, não só da América Latina. No início dos anos 1980, sua política de contenção do comunismo se voltou para Ásia, depois da invasão Soviética ao Afeganistão e da revolução Islâmica no Irã, ambos no ano de 1979. A política dos Estados Unidos foi de apoiar os inimigos dos seus inimigos, seguindo aquele ditado: “os inimigos dos meus inimigos são meus amigos”. No caso do Afeganistão o apoio em forma de dinheiro e armas foi para a milícia Talibã; e o inimigo do Irã, e, portanto, amigo dos Estados Unidos, àquela época era o Iraque e seu ditador, Sadan Hussein. Anos depois tanto os Talibãs quanto Sadan seriam os maiores inimigos dos estadunidenses, depois de um outro 11 de setembro.
Mas voltando ao ditador do Chile, este deixou de ser importante parta os Estados Unidos depois da queda do Muro de Berlim, e tornou-se um inconveniente bem antes, ainda na década de 1970, quando o presidente estadunidense Jimmy Carter, chamou atenção para o desrespeito aos direitos humanos na União Soviética, e “descobriu” que tinha como aliado na luta contra o comunismo um ditador feroz (não era o único, existiam outros). Assim, o ditador foi obrigado a deixar o governo nas mãos dos civis.

domingo, abril 06, 2008

Martin Luther King, In the name of love




No início de abril de 1968 a Academia de Artes e Ciências de Hollywood estava preparada para entrega do Oscar, porém o assassinato de Martin Luther King adiou a cerimônia de entrega por dois dias. A academia se calou! King foi durante os anos 60 um dos líderes negros mais ativos nos Estados Unidos. Filho de um pastor, em 1954, ele aceitou a pastoral de Montgomery, no Alabama. Em dezembro do ano seguinte liderou o primeiro grande movimento não violento negro, o boicote dos ônibus que durou 382. Em Montgomery a discriminação nos ônibus era legal, e os negros podiam apenas se sentar nos bancos traseiros, não podendo utilizar o espaço dos brancos. Em 21 de dezembro de 1956, a Suprema Corte dos Estados Unidos declarou inconstitucional a segregação nos ônibus. Foi a primeira grande vitória de King.

O líder negro pacifista, aos 35 anos foi a pessoa mais nova a ganhar o Prêmio da Paz, e doou todo o dinheiro do prêmio, mais de 50 mil dólares, à causa dos direitos civis dos negros.

Realmente King foi um líder nato. No seu famoso discurso “I Have a Dream” ele pedia um país onde negros e brancos pudessem se confraternizar. Na noite de 4 de abril de 1968 Martin Luther King descansava num hotel em Memphis, quando levou um tiro disparado por um prisioneiro branco que fugira. Quando a notícia da sua morte se espalhou a violência estourou em mais de 100 cidades. O movimento negro depois de King se tornou mais violento, o racismo hoje nos Estados Unidos não é mais legalizado. Mas na grande potência defensora da liberdade e da democracia, como eles gostam de se auto intitular, em alguns lugares negros e brancos ainda não podem se confraternizar.



U2
Pride (In The Name Of Love)
One man come in the name of love
One man come and go.
One man come here to justify
One man to overthrow.
In the name of love
What more in the name of love.
In the name of love
What more in the name of love.
One man caught on a barbed wire fence
One man here resist
One man washed up on an empty beach
One man betrayed with a kiss.
In the name of love
What more in the name of love.
In the name of love
What more in the name of love.
Early morning,
April four
Shot rings out in the Memphis sky.
Free at last, they took your life
They could not take your pride.
In the name of love
What more in the name of love.
In the name of love
What more in the name of love.

segunda-feira, março 31, 2008

Vietnã 1968, David versus Golias

Durante grande parte de sua história o Vietnã lutou contra a opressão de potências estrangeiras. Ainda no século IX os vietnamitas venceram as forças da dinastia chinesa Han, e colocaram fim à quase mil anos de vassalagem. Depois ainda lutaram contra outras dinastias chinesas, e contra os mongóis. Mais de seiscentos anos depois, já na era moderna lutaram novamente contra os chineses, das dinastias Ming e Ching e na aurora da era contemporânea lutaram contra os khmeres. Porém, em 1860 o Vietnã passou a enfrentar uma potência distante. Naquele ano, os franceses iniciaram a conquista colonial da Indochina, e em quatro décadas consolidaram a dominação da península. Essa dominação só foi quebrada em 1940, quando a colônia francesa foi invadida e dominada pelo Japão. Ao final da Segunda Guerra Mundial, quando os franceses tentaram retomar o controle, o movimento de independência, liderado pela Frente de Libertação Nacional, fundada em 1941 por Ho Chi Minh, já tinha declarado a independência do norte do país. O sul, controlado pela França, foi declarado país independente em 1946. Foi assim que as potências imperialistas levaram o Vietnã a uma guerra de 30 anos de duração, pela sua libertação e unificação.
O novo país de orientação socialista não se rendeu à opressão francesa, e lutou bravamente durante nove anos, derrotando em 1954 os franceses em Dien Bien Phu, e obrigando estes a firmar o acordo de Genebra no mesmo ano. Assim, os franceses e os Norte Vietnamitas acertaram retirar suas tropas do Vietnã do Sul, até as eleições marcadas para 1956. Quando o futuro do país seria decidido nas urnas. Mas os Estados Unidos invadiram o Vietnã do Sul e instalaram um governo títere sob o comando de Ngo Dihn Diem. Em 1968 as tropas estadunidenses no Vietnã do Sul ultrapassavam meio milhão de homens. Mas a grande potência capitalista estava longe de obter uma vitória. Grande parte da sua população não queria guerra. Desde 1965, quando o jornalista Morley Safer gravou uma reportagem no vilarejo de Cam Né, e mostrou aos estadunidenses seus soldados expulsarem os moradores, camponeses, de suas choupanas e com seus isqueiros Zippo atearam fogo nelas, grande parte da opinião pública ficou contra a guerra, além disso, outro grande motivo, talvez até o principal, para rejeição ao conflito, foi o alto número de soldados mortos. E mesmo com uma superioridade bélica avassaladora, os estadunidenses cada vez se atolavam mais no Vietnã, e no final de 1967 a constatação geral era de que não estavam perdendo, mas também não estavam ganhando, ou melhor, aquela guerra nunca seria ganha. Cada vez mais, governo após governo, a questão para eles deixou de ser; “como ganhar a guerra?”, para; “como sair sem sofrer uma grande humilhação?” Algo semelhante ao Iraque de hoje.

A situação se tornou pior para os estadunidenses em janeiro de 1968, quando os Vietcongs iniciaram a ofensiva Tet e chegaram às portas da embaixada dos Estados Unidos em Saigon, capital do Vietnã do Sul, pegando-os de surpresa. A opinião pública estadunidenses ficou cada vez mais contra a guerra, e os estudantes foram para as ruas protestar, principalmente depois do dia 16 de março daquele ano, quando soldados ensandecidos colocaram fogo numa aldeia chamada My Lai, matando crianças, mulheres e idosos. Dessa vez as cenas do holocausto vietnamita não foram filmadas e exibidas no mundo todo, mas a notícia se espalhou. Em 1968, os Estados Unidos foram sacudidos por protestos estudantis. Eles reivindicavam o fim da guerra, melhores condições e menos autoritarismo nas universidades, direitos civis, fim do racismo legal, igualdade para as mulheres e o fim da discriminação aos homossexuais. A guerra terminou em 1975, quando a grande potência imperialista foi humilhada por um país pequeno, atrasado e agrário. Em 1976, o país foi reunificado. Durante mais de 15 anos de guerra os Estados Unidos despejaram no Vietnã mais bombas, em toneladas, do que em toda a Segunda Guerra Mundial, além de terem feito testes com armas químicas e bacteriológicas, destruíram 70% de todos os povoados do norte. Mesmo assim, naquele ano de 1968 o pequeno David começo a derrotar o grande Golias.

sábado, março 08, 2008






Na Semana Internacional da Mulher, mais precisamente no dia 8 de março, consagrado como dia Internacional da Mulher, haverá uma blogagem coletiva para marcar a luta das mulheres contra o preconceito, em favor da igualdade. A escolha desse dia, como uma data de luta, se deu em 1910, no Congresso Internacional das Mulheres Socialistas, em homenagem às 129 operárias mortas queimadas pela força policial numa fábrica têxtil, em Nova Iorque, no dia 08 de março de 1857, durante uma paralisação que reivindicava a redução da jornada de trabalho de 14 para 10 horas diárias, e o direito a licença maternidade.
Os três textos a seguir são a minha pequena contribuição, com o objetivo de levantar a discussão sobre os direitos das mulheres e sua (nossa) luta, pela concretização desses direitos.


ALGUNS ASPECTOS DA CONDIÇÃO FEMININA NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO NO INÍCIO DO SÉCULO XX

No início da década de 1910 um fato noticiado por vários jornais na cidade do Rio de Janeiro serve, de modo geral, de ilustração da vida das mulheres na cidade. Uma mulher jovem, cerca de 20 anos, não identificada, ao circular na Avenida Central (depois de 1912, Rio Branco), acompanhada de outra mulher, foi abordada por um grupo de homens que apuparam-na, gritaram palavras obscenas, puxaram sua roupa. Agredida, com medo da reação da turba, para não ter a roupa rasgada, ela foi obrigada a se abrigar numa loja, pois ainda corria o risco de sofrer outros tipos de violência. A justificativa para o assédio e a violência mais uma vez, como sempre o costume, foi culpar a vítima por vestir uma saia (que como todas as outras não mostrava nada), última moda em Paris, nunca vista antes no Rio de Janeiro, que não tinha aquele número excessivo de anáguas que serviam para deformar e esconder o corpo das mulheres. A saia não era colada ao corpo, mas dava certa forma ao mesmo, e viria a ser usada em pouco tempo por todas as mulheres no Rio de Janeiro.
Esse fato ilustra como eram tratadas as mulheres no Rio de Janeiro naquela época, apenas como objetos para os homens. Dessa forma, havia uma grande delimitação entre os espaço das ditas “mulheres honestas” e as “não honestas”, ou seja, as meretrizes. As primeiras estavam excluídas do espaço urbano, e quando saiam às ruas eram sempre vigiadas por um homem, ou até mesmo por outra mulher. A rua era um espaço masculino, e não poucos casos de estupros eram “desculpados”, pois a culpa era da vítima que se encontrava sozinha em uma rua não apropriada, ou num horário não apropriado, ou havia se “oferecido”. Muitos homens, ao cometer algum abuso contra uma mulher, desculpavam-se ao afirmar que tinham agido de tal modo, por pensarem que a vítima fosse uma meretriz. Não era costume mulher andar sozinha pelas ruas. Uma mulher caminhando desacompanhada causava suspeita, e poderia ser tratada de forma grosseira, ou até sofrer abusos.
Foi inicialmente a necessidade de trabalho que lançou mulheres pobres nas ruas da cidade, na segunda metade do século XIX. Mesmo assim, a rua continuou um espaço masculino. Somente nas primeiras décadas do século XX é que as mulheres começaram a conquistar a ‘liberdade’ de saírem sozinhas às ruas. Mas não foi apenas a necessidade do trabalho que levou às mulheres às ruas, novos costumes, como os passeios de carro, para as elites, e a ia às compras, moda imitada logo pelas mulheres das classes medianas, levaram às das classes mais elevadas a saírem sozinhas às ruas já na década de 1910.
Mesmo assim, apesar de certa liberdade nos espaços públicos, esperava-se que as mulheres se portassem de modo socialmente desejável. Ao se criar o estereótipo da ‘mulher pública’, em antagonismo ao da ‘mulher honesta’, e criar fronteiras simbólicas, interditando espaços públicos e privados às meretrizes e às mulheres não meretrizes em geral, podiam ser mais bem controladas no espaço urbano. Desse modo, ao estigmatizar prostitutas e não prostitutas criava-se um espaço de controle de ambas, onde o cumprimento das regras era vigiado não só pelos homens, mas também pelas mulheres. Aos poucos as mulheres foram se libertando dessas amarras, põem ainda ficaram resquícios do preconceito. Muita luta ainda vai ser necessária para que as mulheres não sejam estigmatizadas por assumirem determinado comportamento, não sejam culpadas mesmo quando são vítimas (muitas mulheres vítimas de estupro são consideradas “culpadas” por usarem roupas sensuais, ou algo parecido), não sofram preconceito apenas por serem mulheres.




MULHERES DE 1968

No dia 07 de setembro de 1968 foi realizado num hotel em Nova Iorque o concurso Miss América. Esse dia, nos Estados Unidos é muitas vezes dado como a data em que o feminismo moderno foi lançado. Mas o que teria em comum um concurso de Miss, evento conservador, onde apenas a beleza e os “bons modos” das candidatas são levados em consideração, com o movimento feminista? Nesse caso, tudo!
As Mulheres Radicais de Nova Iorque naquele ano de 1968, dedicado aos direitos civis, não podiam deixa passar um evento tão triste, sem nenhuma manifestação. Um grupo de mulheres se postou em frente ao hotel com uma grande lata de lixo chamada de “lata de lixo da liberdade”. Dentro da lata de lixo, elas despejaram várias coisas como sutiãs, produtos de beleza, entre outros. Além de pendurar cartazes, e para o evento por vinte minutos repetindo a frase “Liberdade para as mulheres!”. O grupo corou uma ovelha como Missa América 1968. O evento chamou atenção da mídia, colocada no hotel para cobrir a eleição da Miss América, e foi importantíssimo para e luta por igualdade.
A geração de 68 fez a revolução sexual, derrubou estereótipos, colocou as mulheres na frente dos homens. O Miss América 1968 foi um marco, pois a partir daquele momento as mulheres não queria ser vistas apenas como objeto sexual dos homens, ou como uma Miss, “boa na sala e na cama”. As mulheres podiam e podem ser muito mais. Realmente, a exploração, como objeto sexual das mulheres, continua até hoje, mas elas avançaram muito no sentido da igualdade com os homens. Nós (homens) ficamos para trás na revolução sexual, não conseguimos acompanhar as mulheres, somos muito mais lentos com as mudanças. Mesmo assim, com as mulheres fazendo o que apenas os homens podiam fazer, os homens passaram a fazer o que somente mulheres faziam. E hoje homens são tratados apenas como objeto sexual também. No mundo de hoje, torna-se objeto apenas quem quer ser trado como objeto.
As mulheres de 68 revolucionaram o mundo, depois da década de 1960 o mundo não foi mais o mesmo. O amor livre, as famílias modernas, e tantas outras coisas não existiriam não fossem essas mulheres, que não só nos Estados Unidos, mas em grande parte do mundo, não aceitaram a dominação, protestaram, mudaram suas próprias posturas, e mudaram o mundo. Hoje as mulheres podem tudo, e estão cada vez mais próximas do poder. O mundo é das mulheres!




MULHERES QUE NÃO FOGEM À LUTA


Em 1893 a Nova Zelândia foi o primeiro país a conceder o direito de voto às mulheres. Hoje em alguns países as mulheres ainda têm um papel secundário, não só na política. Mas nesses 115 anos muitos avanços ocorrem no campo dos direitos da mulher. É claro que muita luta foi necessária para se obter qualquer direito, e muita luta ainda será necessária para acabar de vez com o preconceito, o machismo, a exploração da mulher e todo tipo de violência que muitas mulheres sofrem no seu dia-a-dia, além da manutenção dos direitos adquiridos ao longo dos anos.
Ainda hoje mulheres são assinadas por seus maridos em diversos países onde às mulheres têm os seus direitos reconhecidos, e esses homens nos tribunais apinhados de homens são muitas vezes julgados de forma branda. Como muitas mulheres no passado que não fugiram à luta pelos seus direitos, ainda hoje é necessário que os movimentos de defesa dos direitos das mulheres estejam ativos. Estamos no século XXI e a igualdade entre os sexos ainda é um mito. As mulheres hoje lutam, principalmente, por afirmação profissional, social e política. Muitas ainda ganham salários em torno de 50% menores do que dos homens, sofrem violência sexual e outros tipos de violência, são tratadas pela mídia como objetos sexuais e há preconceito na política e em outros campos da sociedade.
Não haverá uma sociedade verdadeiramente democrática se as mulheres não estiverem realmente em igualdade com os homens. Nesse sentido, uma revolução democrática ainda será necessária para acabar com as sociedades machista. As mulheres no início do século XX, tanto na Europa como nos Estados Unidos não podiam imaginar que grandes avanços ocorreriam na transformação de suas reivindicações me direitos. Hoje, existe uma diferença muito grande entre países onde as mulheres têm os seus direitos reconhecidos e onde isso ainda não aconteceu. E mesmo nos países onde há o reconhecimento dos direitos das mulheres, a participação delas de forma igualitária na sociedade ainda está para acontecer. Muitas mulheres e homens não devem fugir a essa luta pelos direitos das mulheres. Só assim poderemos num futuro viver num mundo melhor. Sem machismo, sem racismo e qualquer outro tipo de opressão.

sábado, março 01, 2008

* E agora Fidel?

Depois de 49 anos à frente do governo cubano, doente, e de forma melancólica, Fidel Castro deixa o poder. Para muitos já vai tarde! Em 1959, quando a Revolução Cubana derrubou o ditador Fulgencio Batista, a acabou com a dominação americana na ilha, que já durava mais de 60 anos, Fidel era considerado um libertador, não só para os cubanos, mas para o mundo todo. Ele era o homem contra a tirania, hoje ele é a tirania. O barbudo tinha o seu charme, e fascinava não só as esquerdas. Corajoso, inteligente, viril (Fidel nunca foi de uma mulher só!), desde cedo se tornou um mito. A história empurrou e Fidel se deixou empurrar para uma das mais longas ditaduras do século XX, adentrando o XXI. Hoje, quase meio século depois Fidel é visto por muitos como um opressor, um ditador.

A recusa dos EUA em aceitar a liberdade da ilha, levou Fidel a se aproximar cada vez mais da URSS, estávamos na Guerra Fria. O fim do bloco soviético, associado ao bloqueio vergonhoso dos Estados Unidos à Cuba tornou a vida na ilha de Fidel quase insuportável. Mesmo assim, Cuba conseguiu dar a volta por cima e nos últimos anos tem sido um dos países que mais crescem no continente americano.

Fidel, depois de conquistado o poder, não chegou a abandonar o sonho da revolução mundial, mas quis consolidá-la primeiro em Cuba. Já Che Guevara, tinha como objetivo estendê-la para o mundo. Além disso, Cuba era pequena demais para os dois grandes homens. Talvez se Che não tivesse morrido, tão novo, teria contribuído para que Cuba tivesse outro caminho, mais democrático. Talvez o poder não tivesse ficado concentrado nas mãos de Fidel. Talvez! Como a história é sempre o que ela foi, e não o que deveria ter sido, a história julgará Fidel, e é esse o julgamento que ele aguarda. A sua saída da chefia de Cuba pode trazer muitas mudanças para a ilha, e espero que sejam todas elas no sentido de uma democratização com a manutenção de certo socialismo. Que os cubanos não percam os benefícios em saúde e educação que dão a ilha um Índice de Desenvolvimento Humano muito mais alto do que o brasileiro. Que a vontade do povo cubano seja feita, e que o povo realmente se liberte e não precise mais perguntar, “E agora Fidel?”

quinta-feira, janeiro 10, 2008

* O Imperador Presidente

Dom Pedro II pode ser considerado um dos governantes mais democratas do Brasil. Prova disso, temos a liberdade de imprensa nos seus quase 50 anos de reinado; as inúmeras charges sobre o imperador jornais da época; os partidos republicanos; os conspiradores, inclusive nos quadros do exército, no Colégio Pedro II, e no próprio governo. O Imperador dizia, segundo José Murilo de Carvalho, na excelente biografia sobre o monarca (Companhia da Letras, 2007), que preferia ser um presidente da Republica, e via a obrigação de governar como um fardo. Muitos foram os que se arrependeram nos anos seguintes ao golpe militar que depôs o monarca e acabou com a monarquia no Brasil, instalando uma República dominada inicialmente por militares, principalmente na Ditadura de Deodoro da Fonseca.
O Poder Moderador, que permitia ao monarca interferir nos outros 3 poderes, sempre foi usado pelo Imperador, o que não dava aparência de verdadeira democracia ao Brasil. Mesmo assim, apesar de ser considerado um conservador, mesmo na sua época, o monarca trouxe ao Brasil alguns avanços. É claro que eles poderiam ter sido maiores


O exemplo de D.Pedro II poderia ser seguido pelos presidentes brasileiros. O desapego ao poder. Não há evidência nenhuma que após o golpe de Estado que o desapeou do trono, ele tenha tramado algum tipo de resistência para se manter no poder; o desapego a pompa, o Imperador era visto andando no meio de multidão do Rio de Janeiro, e recebia no Palácio, tanto na Quinta da Boa vista, quanto no Paço, num dia pré determinado da semana aqueles que quisessem falar ao monarca. A liberdade de imprensa. Diferente de seu pai, não há notícia de que D.Pedro II tenha mandado empastelar nenhum jornal, ou mandado prender nenhum jornalista por tê-lo criticado. Aquela época já havia a imprensa tendenciosa (a imprensa nunca é neutra, nem tem condições de ser), e maliciosa. O Imperador muitas vezes foi caricaturado ou criticado injustamente. Não foram poucos os jornalistas e os donos de jornais que criticavam o Imperador, ou pediram com urgência a República, e que se arrependeram após a sua proclamação, devido à falta de liberdade que ela trouxe. Poucos foram os anos da nossa República em que tivemos liberdade de fato de imprensa. Na República Velha essa liberdade nunca existiu de fato; na República Nova de 1930 a 1937, só existiu por um curto período entre 1934 e 1935. E na outra República Nova, a de 1946, somente houve liberdade de imprensa até 1947, quando o partido Comunista foi cassado. Ali passou existir a imprensa do golpe, Carlos Lacerda que a encabeçava pedia o fim da legalidade, e que os militares dessem um golpe nos seus adversários. Mas as liberdades democráticas estão ai para todos, da mesma forma que suas restrições só não atingem que as restringe. Como Albert Camus, no “Homem Revoltado”, a liberdade absoluta é de um só, a igualdade não existe se não for para todos. Lacerda, como os jornalistas do golpe de 1889 tiveram aos poucos seus direitos restringidos.
Hoje, no período mais democrático da história do Brasil, vemos jornalistas gritarem por um golpe, por soluções não constitucionais, ou por golpes constitucionais. Será que eles não leram nos livros de história, que essa caixa de pandora, que é a fuga da legalidade, vai nos trazer mais dissabores do que qualquer desvantagem? Desestabilizar um governo constitucionalmente eleito, que tem a aprovação da maioria da população, significa desestabilizar o país. O que eles têm a ganhar, devemos nos perguntar? Um certo jornalista, chegou a intitular o Presidente de sua anta. Esse tipo de crítica que não é construtiva, pelo contrário é vulgar, antidemocrática, não ajuda em nada no desenvolvimento da democracia no país. Que publicação séria, desmotivada, deixaria um colunista seu publicar esse tipo de artigo?
Críticas ao governo atual devem existir, existem, mas devem ser conseqüentes e balizadas. Como todas as críticas aos governos constitucionalmente eleitos, dentro da normalidade política. A história nos mostra grandes exemplos. O que fazem hoje com o governo atual é algo parecido ao que se fazia no período de 1950/4 no governo de Getúlio Vargas, ou no período de João Gullar. A imprensa tem que pensar o seu papel no golpe militar. Da mesma forma que pensa o seu papel positivo na abertura política. D. Pedro II nos deixa dois exemplos, o primeiro é de que o governante, mesmo se atacado injustamente, não deve atacar a imprensa, e sim seguir os caminhos legais de reparação, mas nunca de perseguição; os jornalistas devem pensar, que a normalidade constitucional sempre é o melhor, pois após os Golpes os primeiros a serem calados são eles mesmos.

* Teremos uma presidente?

Somente em 1893 as mulheres ganharam direito a voto, isso na pequena Nova Zelândia, ainda, aquela época, colônia Britânica. Ainda na década de 1920, elas não podiam votar na maioria dos países ao redor do mundo. Nos Estados Unidos só conquistaram esse direito em 1919, e no Brasil em 1932. Somente após a Primeira Guerra Mundial que as mulheres conquistaram o direito ao voto em alguns países europeus, Inglaterra (1918), Alemanha (1919), Portugal (1931), na desenvolvida Suíça até a década de 1970, em alguns Cantões, as mulheres ainda não podiam votar. Na América Latina, o primeiro país a conceder o direito a voto para as mulheres foi o Equador (1929), na Argentina, país considerado mais desenvolvido da América do Sul, até a Segunda Guerra Mundial, somente em 1946 as mulheres passaram a votar.



Somente em 1893 as mulheres ganharam direito a voto, isso na pequena Nova Zelândia, ainda, aquela época, colônia Britânica. Ainda na década de 1920, elas não podiam votar na maioria dos países ao redor do mundo. Nos Estados Unidos só conquistaram esse direito em 1919, e no Brasil em 1932. Somente após a Primeira Guerra Mundial que as mulheres conquistaram o direito ao voto em alguns países europeus, Inglaterra (1918), Alemanha (1919), Portugal (1931), na desenvolvida Suíça até a década de 1970, em alguns Cantões, as mulheres ainda não podiam votar. Na América Latina, o primeiro país a conceder o direito a voto para as mulheres foi o Equador (1929), na Argentina, país considerado mais desenvolvido da América do Sul, até a Segunda Guerra Mundial, somente em 1946 as mulheres passaram a votar.



Mas não só de direito ao sufrágio se faz à participação feminina no mundo da política. A participação se estende também ao direito a serem votadas, e finalmente a serem eleitas. Muitas mulheres têm ocupado cadeiras nos parlamentos de diversos países. Mas no executivo as mulheres ainda têm avançado a passos mais lentos. Tivemos até hoje mais Primeiras-ministras do que Presidentes mulheres. Sirimavo Bandaranaike, do Sri Lanka, foi a primeira mulher a ocupar o cargo de Primeria-ministra no mundo. Ela exerceu a função em três períodos, de 1960 a 1965, de 1970 a 1977 e de 1994 a 2000. A primeira mulher a presidir um país foi Isabel Perón que sucedeu ao presidente Juan Domingo Perón, seu marido, de quem era vice-presidente, após sua morte em julho de 1974. Foi derrubada por um golpe militar em março de 1976. Isso na Argentina, que no ano de 2007 elegeu Cristina Kirchner presidente, mulher do então presidente Nestor Kirchner. Na América Latina cada vez mais mulheres têm conquistado a presidência de seus países. Os casos mais interessantes são de Violeta Chamorro na Nicarágua entre 1990 e 1996, viúva do ex-presidente Pedro Chomorro, e recentemente no Chile, quando Michelle Bachelet foi eleita em 2006. Primeira mulher escolhida para encabeçar o Estado pelo voto universal no Chile e na América do Sul.



No ano de 2008 teremos eleições presidenciais nos Estados Unidos, e Hillary Clinton, mulher do ex-presidente Bill Clinton, poderá ser a candidata do Partido Democrata. Durante o segundo governo Clinton Madeleine Albright foi Secretária de Estado, posto ocupado na segunda gestão de George W. Bush por outra mulher, Condoleza Rice. No Brasil, nas eleições de 2010 provavelmente termos como fortíssimas candidatas Dilma Russef e Heloísa Helena. Quem sabe não surgirão outras? O que mais se parece com governo feminino no Brasil foram às regências da Imperatriz Leopoldina, e da Princesa Isabel, beata e conservadora. Foi durante a sua segunda regência que finalmente a escravidão foi abolida no nosso país.


O século XIX foi o século das sufragistas, como ficaram conhecidas as mulheres que lutaram pelo direito ao voto feminino; o século XX foi o século da conquista do voto, e do início da participação da mulher na política, participando efetivamente de governos. Como exemplos importantes podemos citar em Israel, Golda Meir, primeira-ministra de 1969 a 1974, e na Grã-Bretanha, Margaret Thatcher, conhecida como a "dama de ferro", única mulher a ocupar o posto de primeira-ministra na história do Reino Unido, foi chefe do governo britânico de maior duração no século XX: 11 anos e 209 dias (maio de 1979 a novembro de 1990). O século XXI será o das mulheres presidentes e primeiras-ministras. Vejo uma reunião de presidentes do continente Americano dominada por mulheres. Será que seus maridos, primeiros-cavalheiros, vão fazer passeios turísticos e conhecer obras sócias enquanto elas decidem o futuro do continente?
Atualmente mulheres chefiam o governo ou são chefes de Estado e governo em diversos países do mundo. Além da Argentina e do Chile (América), temos mulheres chefiando a Alemanha (Europa), Coréia do Sul (Ásia), Moçambique (África) e Nova Zelândia (Oceania). No mínimo uma em cada continente. Ainda é pouco, mas já é um grande avanço.
Qual a importância de ter um mundo governado por mulheres? No mínimo um mundo mais justo do ponto de vista dos sexos. A participação da mulher nos cargos majoritários dos governos trás justiça a todas as mulheres excluídas, exploradas, subjugadas durante quase toda a história da humanidade. Isso no mínimo. Outras mudanças ocorrem nos governos femininos, como maior visibilidade e liberdade às mulheres. Ainda outras mudanças devem ocorrer, com o modo feminino de governar, temos que “pagar para ver”, e esperar outras revoluções que elas farão.