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terça-feira, setembro 16, 2008

Um outro 11 de setembro




No dia 11 de setembro de 1973 a história da América Latina mais uma vez se encheu de infâmia. Depois do Brasil e da Bolívia em 1964, da Argentina em 1966 e 1976, do Uruguai naquele mesmo ano, foi a vez do Chile sofrer um golpe militar (o Paraguai já sofria com a ditadura desde 1954, e ainda sofreria sob os desmandos de Stroessner (1912-2006) até 1989, a ditadura mais longa da América do Sul). Reforçando o pensamento preconceituoso existente na Europa e nos Estados Unidos de que o continente era constituído de repúblicas das bananas, assoladas por caudilhos, o general Augusto Pinochet (1915-2006) deu um golpe militar no presidente constitucionalmente eleito Salvador Allende (1908-1973), que resistiu bravamente, e morreu no palácio de governo. O golpe do Chile teve apoio dos Estados Unidos que mandou navios para a costa chilena, além de ampla participação da CIA. O Chile sofreu com uma das ditaduras mais duras do continente, com milhares de mortos e desaparecidos. Finalmente, em 1990 o país voltou à legalidade com o fim da ditadura militar.
Diferente do Brasil, no Chile os agentes do Estado que mataram e torturaram têm sido punidos. O ditador chileno, Augusto Pinochet, chegou a ser preso em 1998, em Londres, por ordem expedida pelo valente juiz espanhol Baltasar Garzón. Além das acusações de assassinatos e violações de direitos humanos o ditador enfrentou acusações por outros crimes cometidos por ele, como enriquecimento ilícito.
A política estadunidense continuou a ser de intervenção direta ou indireta em outros países, não só da América Latina. No início dos anos 1980, sua política de contenção do comunismo se voltou para Ásia, depois da invasão Soviética ao Afeganistão e da revolução Islâmica no Irã, ambos no ano de 1979. A política dos Estados Unidos foi de apoiar os inimigos dos seus inimigos, seguindo aquele ditado: “os inimigos dos meus inimigos são meus amigos”. No caso do Afeganistão o apoio em forma de dinheiro e armas foi para a milícia Talibã; e o inimigo do Irã, e, portanto, amigo dos Estados Unidos, àquela época era o Iraque e seu ditador, Sadan Hussein. Anos depois tanto os Talibãs quanto Sadan seriam os maiores inimigos dos estadunidenses, depois de um outro 11 de setembro.
Mas voltando ao ditador do Chile, este deixou de ser importante parta os Estados Unidos depois da queda do Muro de Berlim, e tornou-se um inconveniente bem antes, ainda na década de 1970, quando o presidente estadunidense Jimmy Carter, chamou atenção para o desrespeito aos direitos humanos na União Soviética, e “descobriu” que tinha como aliado na luta contra o comunismo um ditador feroz (não era o único, existiam outros). Assim, o ditador foi obrigado a deixar o governo nas mãos dos civis.

sábado, março 01, 2008

* E agora Fidel?

Depois de 49 anos à frente do governo cubano, doente, e de forma melancólica, Fidel Castro deixa o poder. Para muitos já vai tarde! Em 1959, quando a Revolução Cubana derrubou o ditador Fulgencio Batista, a acabou com a dominação americana na ilha, que já durava mais de 60 anos, Fidel era considerado um libertador, não só para os cubanos, mas para o mundo todo. Ele era o homem contra a tirania, hoje ele é a tirania. O barbudo tinha o seu charme, e fascinava não só as esquerdas. Corajoso, inteligente, viril (Fidel nunca foi de uma mulher só!), desde cedo se tornou um mito. A história empurrou e Fidel se deixou empurrar para uma das mais longas ditaduras do século XX, adentrando o XXI. Hoje, quase meio século depois Fidel é visto por muitos como um opressor, um ditador.

A recusa dos EUA em aceitar a liberdade da ilha, levou Fidel a se aproximar cada vez mais da URSS, estávamos na Guerra Fria. O fim do bloco soviético, associado ao bloqueio vergonhoso dos Estados Unidos à Cuba tornou a vida na ilha de Fidel quase insuportável. Mesmo assim, Cuba conseguiu dar a volta por cima e nos últimos anos tem sido um dos países que mais crescem no continente americano.

Fidel, depois de conquistado o poder, não chegou a abandonar o sonho da revolução mundial, mas quis consolidá-la primeiro em Cuba. Já Che Guevara, tinha como objetivo estendê-la para o mundo. Além disso, Cuba era pequena demais para os dois grandes homens. Talvez se Che não tivesse morrido, tão novo, teria contribuído para que Cuba tivesse outro caminho, mais democrático. Talvez o poder não tivesse ficado concentrado nas mãos de Fidel. Talvez! Como a história é sempre o que ela foi, e não o que deveria ter sido, a história julgará Fidel, e é esse o julgamento que ele aguarda. A sua saída da chefia de Cuba pode trazer muitas mudanças para a ilha, e espero que sejam todas elas no sentido de uma democratização com a manutenção de certo socialismo. Que os cubanos não percam os benefícios em saúde e educação que dão a ilha um Índice de Desenvolvimento Humano muito mais alto do que o brasileiro. Que a vontade do povo cubano seja feita, e que o povo realmente se liberte e não precise mais perguntar, “E agora Fidel?”