domingo, janeiro 13, 2008

* Conto... Mas, não conto!

Vai ai um micro-conto. Para dizer a verdade prefiro os contos aos micro- contos, mas num blog fica difícil publicar contos grandes. Mas haverá continuação... Será que é uma novela, em partes? Acho que é uma novela... Isso tudo é uma novela.

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Carlos chegou ao hotel em São Paulo pouco antes das 10 horas da manhã. A balada tinha sido maravilhosa, ele não teria muito tempo para dormir, o relógio gritaria impreterivelmente às 12 horas, e deveria estar de pé, para um compromisso. Tomou um banho morno, o que amolece o corpo e aproxima o sono, e se deitou. Pouco mais de uma hora depois acordou irritado e com cara de mal-humor. Havia sonhado um sonho muito real. Sonho parecido com muitos outros, que o irritava pela manhã, tamanha a veracidade, a quantidade de informação que ele não conseguia processar. No sonho, ele via uma rua que ziguezagueava como serpente, num bairro do subúrbio do Rio de Janeiro, se via parado perto de uma estação ferroviária, na entrada de um motel. Tinha mais alguém no seu sonho, que aparecia e desaparecia, como em filme de suspense, sem que pudesse ver o rosto. Isso lhe dava a impressão de que a pessoa fosse desconhecida, mas havia algo, uma sensação, um cheiro, um clamor no ar, por aquele desconhecido, como se se conhecessem, ou como se viesse a se conhecer. Ainda no sonho se viu deitado na cama do hotel de São Paulo, e estava com esse desconhecido, que ele não podia adivinhar quem era, nem beijar sua boca, nem sentir seu cheiro, nem lhe tocar. O sonho o deixou intrigado. Como se tudo aquilo fosse capricho de algum deus grego que havia mostrado apenas uma parte de algo importante, mas não o deixara ver tudo.
Alguns meses depois, Carlos foi convidado por um amigo para ir a um encontro (Orkontro) de uma comunidade do Orkut, o qual ele havia relutado em participar, mas em pouco tempo havia se tornado um aficionado. Não que aquele fosse o seu primeiro encontro desse tipo, mas ele havia se prometido a não participar de mais nenhum. Resolveu entrar na Comunidade onde se patrocinava o encontro e “passear” entre as postagens e ver as pessoas que haviam escrito mensagens afirmando que iriam. Um dos participantes era Ivan. Carlos se perdeu no perfil dele.
Mas Ivan chamou sua atenção não pela beleza. Não que ele não fosse bonito, mas porque parecia ser uma pessoa de muito conteúdo e atitude. Carlos ficou algum tempo lendo seu perfil no Orkut, viu as fotos, suas comunidades, entrou no seu blog e leu alguns contos, observou tudo. Gostou! No dia do encontro, como Carlos chegou atrasado, eles se encontraram na Cinelândia, quando todos já rumavam em direção à Lapa. Ivan e Carlos não conversaram muito. Parecia haver alguma incompatibilidade entre eles, tal qual pessoas de gostos totalmente diferentes. Mas o que os afastava, também os aproximava, e continuaram se vendo, sempre com outros amigos comuns. Menos de um mês depois do Orkontro, surgiu uma viagem para São Paulo, em grupo. Ivan, que para todos afirmava ser heterossexual, se incomodou em ter que dividir o mesmo quarto com Carlos, homossexual assumido. Mas a viagem transcorreu sem problemas, e teve até momentos de muita descontração, riso e diversão. Dois dias depois da volta, Carlos, encantado com a inteligência, a sensibilidade, a simpatia, o bom humor de Ivan, resolveu mandar-lhe um e-mail afirmando suas suspeitas sobre a sexualidade do amigo. Teve medo de não ser bem recebido, de perder o novo amigo, mas mesmo assim investiu-se de coragem e enviou a mensagem. Por outros dois dias trocaram e-mails, alguns até contendo grosserias. Os dois iram se encontrar numa festa no final daquela semana. Então resolveram contemporizar, e acabar com as pendengas existentes entre eles. Como se isso colocasse ponto final naquela história.
Encontraram-se na entrada da festa. Ivan estava acompanhado de uma amiga, e Carlos de um amigo. Pareciam, que estavam seguros. Ivan pareceu a Carlos mais bonito do que nunca. Os dois estavam irradiantes. A música da festa estava muito boa, parecia que ia transpô-los para outros mundos, dançaram muito, beberam algumas cervejas, para descontrair e afastar certa tensão existente entre os dois, e deixar acontecer a tempestade de tesão, que parecia se aproximar, devido a intensidade das nuvens pesadas que se localizavam sobre suas cabeças. Depois de uma boa seqüência de música, na qual eles estiveram dançando com seus corpos muito próximos, como se fossem se fundir, resolveram dar uma saída da pista de dança. No caminho Carlos sentiu seu braço ser agarrado pela mão de Ivan, que apertava forte. Sentiu seu corpo ser puxado na direção a um canto mais ermo. Ivan segurou seu rosto e o beijou forte. Os dois ficaram algum tempo se beijando, abraçados. Carlos era o primeiro homem que Ivan havia beijado. Tudo para ele era novo, e sentia suas pernas tremer. Ele não sabia como agir. A barba rala de Carlos fazia cócegas no pescoço suado de Ivan, e deixava bem claro para ele, que aquele que o beijava era um homem. A barba o lembrava a cada beijo, que Carlos era homem. Foi como se alguém repetisse baixinho no seu ouvido, “você está beijando um homem”. Ivan ficou sem graça, e resolveu parar.
Carlos, apesar da rapidez das coisas ficou muito feliz. Quando estava em São Paulo com Ivan, na semana anterior, num dos raros momentos de descontração que eles haviam tido no quarto, deitaram-se na cama de casal para conversar, lado a lado. Foi o momento mais próximo que os dois tinham compartilhado até então, e Carlos pôde se lembrar do sonho estranho que tivera da vez anterior, em que havia estado naquele hotel. Ivan se arrepiou, pois ele morava bem próximo daquele lugar que havia aparecido no sonho de Carlos.
Ivan era mais do que um sonho, pensou Carlos. Ele não queria assustar o rapaz, mas também queria deixar claro que o seu sentimento não era apenas de amizade. Ivan era muito mais, e ele queria tê-lo por perto.

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