quinta-feira, janeiro 31, 2008

* Janeiro de 1968


Quem pensa que 1968 é apenas ‘Paris - Maio de 68’, está errado. O ano foi de efervescência política e cultural em todo o mundo. Em 1967 morreu assassinado no interior da Bolívia o revolucionário argentino Che Guevara, o que para os conservadores deve ter sido um alívio, pois, a propagação da revolução comunista, principalmente, na América Latina estaria, por algum tempo, interrompida. Mas 1968 foi um ano de grandes revoltas, sem grandes líderes, de modo geral, o que se viu foi a massa nas ruas, a imagem mais forte daquele ano que não terminou.

O ano de 1968 já começou agitado. Em 5 de janeiro teve início a Primavera de Praga, com a eleição de Alexander Dubcek, para o cargo chefe da Tchecoslováquia. Ele em pouco tempo tentaria romper com a cortina de ferro. Meses depois da vitória de Dubcek, o país ia sofrer um dos episódios mais dramáticos da história de ocupação Soviética na Europa, quando tropas russas e do Pacto de Varsóvia invadiram as principais cidades e a capital, Praga, tendo apenas como oponentes a população, que lutou bravamente nas ruas.
Ainda em janeiro (31), outro povo que lutava contra ocupação estrangeira, os Vietcongs atacou a embaixada americana em Saigon, capital do Vietnam do Sul. A batalha por Saigon só começaria alguns meses depois.

Mas o ano tinha apenas começado.

terça-feira, janeiro 29, 2008

* Agora que chegou o carnaval

Agora que chegou o carnaval
Tiro do armário minha velha fantasia
O palhaço continua vivo...
Trago alguns rasgos do ano que passou
Mas quem nunca remendou
Um carnaval que nunca começou
E antes da quarta-feira acabou?

Não vou deixar de pular
Pisar nas pedras das ruas
Com alegria
Como se fosse nova a fantasia
Pintar o rosto
Com bravura e galhardia
Mostrar quem não sou
Porque o carnaval chegou
E a tristeza deixou de existir
Onde existia

É necessário recomeçar
Picar papel, fazer confetes
Colorir de arco-íris
Aquela nova hipocrisia
Depois de muitos carnavais
Relembrar a velha marchinha
Que fica mais bonita a cada dia

O palhaço continua vivo
E na escuridão da noite
A alegria pode ser apenas fantasia
Pra que chorar?
Se tudo vai acabar um dia
Ao meio-dia
Depois daquela eterna euforia
E quando o porre passar
Tudo o que sobrar
É pra guardar
Junto com a velha fantasia
Pro próximo carnaval que chegar

segunda-feira, janeiro 28, 2008

* Sou o que não pode ser

Se por acaso alguma coisa em mim fosse verdade, seria ficcional. Eu sou mentira, até que se prove o contrário.


PERECÍVEL

Um dia frio
Tempo estranho
Não saio do quarto
Nem tomo banho
Pereço
Mereço

Quando nasci
Um dia que nunca lembrarei
Fedia
Perecia
Merecia

Dentro de você
Nunca esqueço
Um dia que não teve preço
Deixo-me e adormeço
Inerte acordo
Pereço
Mereço-te

Todo dia pereço
Envelheço
Mereço
Data de validade indefinida
Perecível a vida


São apenas palavras, rabiscadas, inacabadas, vomitadas, não escritas. Devolvo a falta de esperança que tens na vida, lamba, você mesmo, todas essas tuas inúmeras feridas. Tenho muitos anos, tantas milhas navegadas. Nos muitos portos em que já aportei, quase sempre me apaixonei. Tua pouca idade, não te faz novo, apenas tolo e moribundo. Sei. Cantar, não sei, mas canto. Amar, não sei, mas amo. Sou imperfeito, isso também sei. Não há nada para chorar, cansei. Triste es tu, tão velho e não aprendeu a amar.





quinta-feira, janeiro 24, 2008

* Na Caverna



Quando percebi que estava numa caverna escura, pensei que fosse tarde demais. Tentei tatear a saída, mas para que lado era a saída? Bati com a cara nas pedras, cai no chão. Tudo ficou ainda mais obnubilado. Desorientado, procurei ir à direção onde era possível respirar melhor; mas me faltava o ar. Não era possível ver nada, e perdi todo o senso de direção. Então, resolvi me entregar à sorte, e adentrei, o mais profundo que pude, na caverna. Às vezes não era possível respirar o ar sufocante, mas continuei, seguindo em frente, sem ver nada, na escuridão abissal. Tão escuro era, que ao fechar os olhos via uma luz, que não existia, e abria-os, sem notar que era quase um sonho. Mas, o pesadelo, as trevas, se grudou em mim. E passei a enxergar, mesmo no escuro, mesmo sem ver nada, passei a ver o que eu queria. Foi quando, tal qual uma revolução, a noite se fez dia. E com tudo clareado, voltei desesperado, para onde tudo era nublado.


quarta-feira, janeiro 23, 2008

* SUFOCAR

É necessário sufocar
Fumar 25 cigarros
Sem parar

Se jogar no mar
Mergulhar
Afundar
Sem saber nadar
Se afogar
Parar de respirar
Sem gritar
Sufocar

Menstruar o sangue das veias
Depois de se cortar
Extirpar
Expiar
Expirar
Sem excogitar

Apertar o cinto no pescoço
Até o sangue parar
De circular
Desmaiar
Parar de respirar
Pra nunca mais voltar
Pra nunca mais desejar

segunda-feira, janeiro 21, 2008

* 1968



Para comemorar os 40 anos de 1968, e suscitar o debate, pretendo escrever alguns texto sobre aquele ano, que por ter sido maior do que os outros, não acabou. Começo falando de um filme, que eu adoro, “Os Sonhadores”, que termina na Revolução de Paris de 1968. O texto é apenas uma exposição de algumas idéias, não é resenha sobre o filme, não é crítica, serve apenas como introdução.
OS SONHADORES


Theo (Louis Garrel), Matthew (Michael Pitt) e Isabelle (Eva Green) estão deitados dentro de uma barraca, montada na sala de casa, de repente uma pedrada quebra a vidraça, e desperta os jovens para o mundo lá fora. 1968, a Revolução começou. A cena é do filme “Os Sonhadores” de Bernardo Bertolucci, e na cena seguinte os jovens têm que escolher entre participar da revolução, ou seja, das manifestações, ou não. Theo, o jovem sonhador francês, entra no meio da multidão que havia tomado as ruas de Paris, e busca um coquetel Molotov. Matthew, o jovem americano que foi estudar em Paris é contra, e diz, tentado retirar a bomba das mãos do amigo, “Theo, está errado”. A resposta, não poderia ser mais idealista. “É maravilhoso, Matthew”, que rebate, “Isto é violência”. Para os americanos, a única violência aceitável tem sido a deles mesmos, qualquer outra é violência. Mas e as guerras de independência, as lutas contras as ditaduras, e a opressão? (A Veja faz questão de afirmar que Mariguella, ou Lamarca eram terroristas, e os algozes de todo o povo, o que eram? Mas pensando assim Tiradentes também foi um terrorista, Zumbi, Antônio Conselheiro também.) O diálogo deles continua. Matthew beija Isabelle e Theo na boca, para mostrar que a arma da nova geração deveria ser o amor. Perdida a revolução “paz e amor” torna-se o lema da década de 1970, o lema de Woodstock. Há uma despolitização da política, ou seja, os temas somem da pauta, aparecem às pessoas (políticos), os partidos, as ideologias. As idéias são mais importantes, mas elas acabam esquecidas. “Os Sonhadores” termina em 1968, termina com a revolução. Mas os sonhos e as idéias não!



sábado, janeiro 19, 2008

* Hoje já é outro dia!


Passa das três horas da manhã, deitado na rede, na sala, tento ludibriar o sono, e terminar a leitura de um livro, faltam apenas 20 páginas, 22, 24... Desconcentro-me. A janela totalmente aberta deixa entrar uma brisa gostosa, o tempo muda, lá fora, o vento faz a árvore vizinha ao prédio balançar. Fico por uns instantes observando nuvens pesadas encobrirem o céu. Meu cigarro queima solitário no cinzeiro. Acendo outro, e ele queima sozinho entre meus dedos, até uma ponta de cinza incandescente cair sobre minha mão, produzindo uma pena queimadura, e me despertar dessa apatia. Sinto como é gostoso estar ali, no adiantar da hora, sozinho. Por alguns segundos me amo. Sinto-me feliz comigo mesmo, e não sinto estar perdendo nada. Apesar de saber que sempre estamos perdendo algo. É tão gostoso estar comigo mesmo, e me sentir bem comigo mesmo. Penso em alguém que me despertou um sentimento muito bom. Penso forte, e sinto como se caísse de um precipício. Vertigem... A rede balança com o meu corpo, sem que eu tenha vontade de me balançar. Sinto calor, e fecho os olhos, mas tua imagem me vem, como se você estivesse ali, de pé me esperando. A tua aparição é tão real, que faço um esforço para levantar, e segurar na tua mão. Mas estou ainda de olhos fechados, e ao colocar o pé no chão caio. Encontro-me com o taco, que nunca esfria, e nunca é quente, e me sinto perto de você. A chuva que começa a cair lá fora atravessa a janela, e invade a sala, molha os meus pés, e mais uma vez desperto. Você não está, nunca esteve, nunca estará. Você nunca estará, nunca esteve, não está. Não consigo mais te ver, tua imagem não se forma quando fecho os olhos. Apaguei você por alguns instantes. Não sinto medo, pois ele é teu. Não sinto nenhum sentimento ruim. Levanto-me para fechar a janela, e deixo-me molhar o rosto com os pingos da chuva. Queria muito poder sair e tomar um banho de chuva... Desço para a rua, estou sem camisa e sinto aos poucos meu corpo se refrescar, não tenho impedimentos, vivo, vivo. Quem está na vida é pra se molhar! Volto pra casa, mais feliz do que antes. Deito-me na rede, ainda molhado, recomeço a ler. O meu relógio parou de contar as horas. Faltam poucas páginas para terminar de ler o livro. Adormeço e acordo com a luz do Sol no meu rosto. Tento me lembrar do que aconteceu, e imagino ter feito coisas que me deixaram feliz, tenho que terminar de ler o livro, tenho que secar o chão da sala, mas deixo-me ficar na rede, vendo o nascer do Sol, e admiro o quanto o mundo pode ser bonito, e quanto à vida pode ser feliz. Tento não ser tão otimista. Hoje já é outro dia!